Comprar a casa própria quase sempre passa por um financiamento — poucos têm o valor à vista. E aí, no meio do processo, o banco pergunta algo que trava muita gente: você quer SAC ou Price? Duas palavras que definem como suas parcelas vão se comportar pelos próximos 20, 30 anos.
SAC e Price são os dois sistemas de amortização do financiamento imobiliário. No SAC, as parcelas começam mais altas e diminuem com o tempo, e você paga menos juros no total. Na Price, as parcelas são fixas do começo ao fim, mais fáceis de encaixar no orçamento, mas você paga mais juros ao longo do contrato. A maioria dos financiamentos imobiliários no Brasil usa o SAC.
Não existe “melhor” universal — existe o que cabe no seu bolso e no seu momento de vida. Entender a diferença antes de assinar pode significar dezenas de milhares de reais a mais ou a menos ao longo do contrato. Vamos destrinchar sem matemática complicada.
Como funciona um financiamento imobiliário
Você dá uma entrada (geralmente 20% a 30% do imóvel) e o banco financia o resto, que você paga em parcelas mensais por um prazo longo — até 35 anos. Cada parcela tem duas partes: a amortização (que abate o valor que você deve) e os juros (o custo do empréstimo).
A parcela também inclui seguros obrigatórios e a taxa de administração. E os juros seguem, em boa parte, a Selic mais um spread do banco. Por isso quem financia em ciclo de juros baixos paga parcelas mais leves. O sistema de amortização — SAC ou Price — define como a parte da amortização e dos juros se distribui ao longo do tempo.
SAC: parcelas que começam altas e caem
No Sistema de Amortização Constante (SAC), o valor que abate a dívida (a amortização) é fixo em todas as parcelas. Como no começo você deve mais, os juros sobre esse saldo são maiores — então a primeira parcela é a mais cara. Conforme a dívida cai, os juros caem, e as parcelas vão diminuindo mês a mês.
Exemplo simplificado. Financiamento de R$ 300 mil em 360 meses. No SAC, a primeira parcela pode ficar em torno de R$ 3.000 e a última em torno de R$ 900. Você começa pagando mais e termina pagando bem menos.
A vantagem é que você amortiza a dívida mais rápido no início, quando ela é maior — e isso reduz o total de juros pago no fim do contrato. Por isso o SAC costuma sair mais barato no total.
Price: parcelas fixas do início ao fim
Na Tabela Price (Sistema Francês de Amortização), a parcela é fixa — o mesmo valor do primeiro ao último mês. No começo, a maior parte da parcela é juros e uma fatia pequena amortiza; com o tempo, essa proporção se inverte.
No mesmo financiamento de R$ 300 mil em 360 meses, a parcela Price ficaria fixa em torno de R$ 2.100, do começo ao fim. Mais previsível, mais fácil de planejar — mas você amortiza devagar no início, então paga mais juros no total do contrato.
A previsibilidade tem valor real. Pra quem tem orçamento apertado e precisa de parcela que caiba certinho todo mês, a Price entrega estabilidade. O custo dessa estabilidade é um total maior de juros.
SAC x Price: a comparação direta
| Característica | SAC | Price |
|---|---|---|
| Primeira parcela | Mais alta | Mais baixa |
| Comportamento | Decresce ao longo do tempo | Fixa do começo ao fim |
| Total de juros pago | Menor | Maior |
| Previsibilidade | Menor (parcela muda) | Maior (parcela fixa) |
| Amortização inicial | Mais rápida | Mais lenta |
| Melhor para | Quem aguenta parcela alta no início | Quem precisa de parcela estável e menor no início |

A leitura prática: se você tem fôlego no orçamento agora e quer pagar menos juros no total, SAC. Se precisa da menor parcela possível no início pra caber no bolso, Price. E lembre: no SAC as parcelas caem, então em alguns anos elas podem ficar mais leves que a Price. Antes de tudo isso, vale comparar com as alternativas — às vezes um consórcio ou juntar mais entrada muda a conta inteira.
A jogada que quase ninguém usa: amortização extra
Independentemente de SAC ou Price, existe uma estratégia que economiza uma fortuna: usar dinheiro extra (13º, restituição do IR, FGTS, um bônus) pra amortizar o saldo devedor antecipadamente.
E aqui tem um detalhe que vale ouro. Ao amortizar, você pode escolher entre reduzir o prazo ou reduzir o valor da parcela. Reduzir o prazo economiza MUITO mais juros no total, porque corta os meses finais inteiros de encargos. Quase sempre, reduzir prazo é a escolha certa.
Você pode usar o saldo do FGTS pra amortizar financiamento imobiliário a cada dois anos (respeitando as regras). É dinheiro que rende pouco na conta do Fundo e pode abater uma dívida que cobra juros — troca quase sempre vantajosa.
Cuidados antes de financiar
- Compare o CET entre bancos. A taxa de juros anunciada não conta a história toda; o Custo Efetivo Total, com seguros e tarifas, sim. Diferenças pequenas na taxa viram muitos milhares no total.
- Junte a maior entrada possível. Quanto maior a entrada, menor o valor financiado e menos juros no total. Cada R$ 10 mil de entrada a mais economiza bem mais que R$ 10 mil ao longo do contrato.
- Não comprometa mais de 30% da renda na parcela. No SAC, lembre que a primeira parcela é a mais alta — é ela que precisa caber.
- Guarde a papelada. Escritura, ITBI e comprovantes definem o custo de aquisição pra quando você for declarar. Veja como em declarar imóvel no IR.
- Planeje amortizações. Já entre no financiamento com o plano de usar 13º, FGTS e restituição pra reduzir prazo. É o que transforma um financiamento caro em suportável.
Perguntas rápidas sobre financiamento imobiliário
SAC ou Price: qual é mais barato?
O SAC paga menos juros no total, porque amortiza a dívida mais rápido no início. A Price paga mais juros, mas oferece parcela fixa e menor no começo. Em custo total, SAC ganha; em previsibilidade e caixa inicial, Price ganha.
Posso usar o FGTS no financiamento?
Sim, em várias situações: como parte da entrada, para amortizar o saldo devedor (a cada 2 anos) ou para pagar parte das parcelas. É um dos melhores usos do FGTS, já que o dinheiro rende pouco no Fundo e abate uma dívida com juros.
Vale a pena financiar ou esperar e juntar?
Depende do custo do aluguel, dos juros do financiamento e da sua pressa. Se o aluguel é alto e você vai morar por muitos anos, financiar pode fazer sentido mesmo com juros. Se dá pra juntar rápido ou o aluguel é baixo, esperar e dar entrada maior (ou fazer um consórcio) reduz o custo. É uma conta pessoal, não uma regra.
Consigo trocar de SAC para Price depois?
Geralmente não durante o mesmo contrato. A escolha é feita na contratação. O que dá pra fazer é portabilidade do financiamento pra outro banco com condições melhores, ou renegociar. Por isso escolher certo na assinatura importa tanto.
Financiamento imobiliário: SAC ou Price, qual escolher
A resposta honesta é a que ninguém gosta: depende do seu orçamento e do seu momento. SAC pra quem aguenta parcela mais alta no início e quer economizar juros no total. Price pra quem precisa de parcela fixa e menor pra caber no bolso hoje. Nenhum é armadilha; são perfis diferentes.
Mas o que realmente muda o jogo não é a escolha entre os dois sistemas — é a disciplina de amortizar com 13º, FGTS e restituição, sempre reduzindo o prazo. É isso que corta anos e dezenas de milhares de reais de juros de qualquer financiamento. Escolha o sistema que cabe no seu bolso, entre com a maior entrada que conseguir, e ataque o saldo devedor sempre que sobrar um dinheiro extra. Feito assim, a casa própria deixa de ser um peso de trinta anos e vira um objetivo com data pra acabar. Antes de assinar, vale ainda revisitar se financiar em vez de juntar é mesmo o melhor caminho pro seu caso.
