Marcação a mercado é a reprecificação diária dos títulos do Tesouro Direto: quando os juros da economia caem, os títulos que você já comprou sobem de preço, e você pode vendê-los com lucro antes do vencimento. Quando os juros sobem, acontece o contrário. É um mecanismo simples de entender e que, para quem sacou a lógica na hora certa, já rendeu ganhos de dois dígitos em poucos meses, sem sair da renda fixa.
A maioria das pessoas acha que renda fixa é sempre estável e previsível. É e não é. Se você segura o título até o vencimento, sim, recebe exatamente o combinado. Mas no meio do caminho o preço balança todo dia, e esse balanço é justamente onde mora a oportunidade que quase ninguém aproveita, por pura falta de entender o básico de economia.
Este guia explica o que é a marcação a mercado no Tesouro Direto, como ela te faz ganhar quando os juros caem, qual é o risco do outro lado, quais títulos oscilam mais e o que o imposto tira da sua conta.
O que é marcação a mercado
Todo título do Tesouro Direto tem um preço que muda todos os dias, conforme a expectativa do mercado para juros e inflação. Isso se chama marcação a mercado. Segundo o Tesouro Direto, os títulos prefixados e o Tesouro IPCA+ passam por essa reprecificação diária, então preço e taxa se movem na direção oposta um do outro.
A relação é essa: quando a taxa de juros de um título cai, o preço dele sobe. Quando a taxa sobe, o preço cai. Parece contraintuitivo, mas faz sentido. Se você travou um título pagando 7,5% ao ano mais a inflação e, semanas depois, o mesmo título passa a ser oferecido a 7% para novos compradores, o seu, que paga mais, virou mais valioso. Alguém pagaria um prêmio para ficar com ele.
Como você ganha dinheiro quando os juros caem
Imagine um Tesouro IPCA+ de vencimento longo, comprado quando a taxa estava em 7,5% ao ano mais a inflação. Se, um mês depois, a expectativa de juros do país recua e esse título passa a ser negociado a 7,1%, o preço da sua cota é remarcado para cima. Na prática, cada título que valia cerca de R$ 1.400 pode passar a valer algumas centenas de reais a mais, tudo por causa da queda na taxa.
Agora multiplique. Quem tinha R$ 100 mil aplicados e vendeu na alta do preço embolsou um ganho que, em títulos longos, pode representar mais de 10% em poucos meses. O investidor não precisou adivinhar o futuro. Precisou apenas entender que uma taxa oferecida muito alta tende a cair quando a economia se ajusta, e que a queda remarca todos os títulos emitidos antes. Esse é o pulo do gato.
Vale a comparação com a bolsa. Na renda variável, uma empresa pode piorar e nunca mais se recuperar. No Tesouro, mesmo que o preço caia no meio do caminho, o título carrega uma promessa de pagamento no vencimento. É um jogo com regras mais previsíveis, desde que você entenda quais são elas.

E quando os juros sobem? O outro lado da moeda
Aqui está a parte que muita propaganda esconde. Se a taxa de juros sobe depois que você comprou, o preço do seu título cai. Quem precisa vender naquele momento realiza prejuízo. Foi o que aconteceu com muita gente que comprou títulos longos e viu o preço encolher quando o mercado passou a projetar juros mais altos.
A diferença é que, na renda fixa, esse prejuízo só se concretiza se você vender. Se segurar o título até o vencimento, ele paga o que prometeu, a inflação mais a taxa contratada. Ou seja, a marcação a mercado é uma oportunidade para quem quer vender antes, e um susto passageiro para quem vai levar até o fim. A regra de ouro: só use a estratégia de venda antecipada com dinheiro que você não precisa resgatar em uma data fixa.
Quais títulos oscilam mais
Nem todo título do Tesouro balança igual. Quanto mais longo o vencimento, maior a oscilação do preço, para cima e para baixo. Já o Tesouro Selic, pós-fixado, quase não sofre marcação, porque acompanha a taxa básica no dia a dia. Veja o resumo.
| Título | Como remunera | Oscilação de preço |
|---|---|---|
| Tesouro Selic | Pós-fixado, segue a Selic | Muito baixa |
| Tesouro IPCA+ curto | Inflação + taxa | Moderada |
| Tesouro IPCA+ longo | Inflação + taxa | Alta |
| Tesouro Prefixado longo | Taxa fixa | Alta |
É por isso que, para uma reserva de emergência, o Tesouro Selic é o mais indicado: você não quer que o dinheiro de curto prazo balance. Já para apostar na queda de juros, os títulos longos são o instrumento, com o risco que vem junto. Entender a diferença entre eles é o que separa quem rende mais que a poupança de quem só acha que rende.
O imposto e os custos que entram na conta
Ganho na marcação a mercado não é dinheiro livre de imposto. Ao vender com lucro, incide o Imposto de Renda pela tabela regressiva: começa em 22,5% para aplicações de até 180 dias e cai até 15% acima de dois anos. Ou seja, vender rápido demais entrega uma fatia maior ao Leão.
| Tempo até a venda | Alíquota de IR sobre o ganho |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15% |
A boa notícia é que o Tesouro Direto não tem come-cotas, a mordida semestral dos fundos. Só há uma taxa de custódia da B3 sobre o valor investido. Quem quer a mesma exposição de forma diversificada e com regras de imposto diferentes pode olhar também os ETFs de renda fixa, que reúnem uma cesta de títulos em uma cota. E, no fim, tudo isso orbita a mesma variável central: a taxa Selic e para onde o mercado acha que ela vai.
O tema no Giro da Bolsa
A mecânica da marcação a mercado no Tesouro IPCA+ foi destrinchada em um vídeo do canal Investidor Sardinha (Raul Sena), que mostrou, na prática, como a queda da taxa remarca o preço dos títulos e cria a chance de ganho antes do vencimento. Vale como aula visual do conceito. Crédito e recomendação ao canal.

Perguntas frequentes sobre marcação a mercado
O que é marcação a mercado no Tesouro Direto?
É a atualização diária do preço dos títulos conforme a expectativa de juros da economia. Quando os juros caem, o preço dos títulos já emitidos sobe; quando os juros sobem, o preço cai. Isso permite vender com lucro ou prejuízo antes do vencimento.
Dá para perder dinheiro no Tesouro Direto?
Só se você vender antes do vencimento em um momento de preço baixo. Se segurar o título até a data final, ele paga a rentabilidade contratada. O risco de perda existe apenas na venda antecipada.
Qual título do Tesouro oscila menos?
O Tesouro Selic, que é pós-fixado e acompanha a taxa básica, quase não sofre marcação a mercado. Por isso é o mais indicado para reserva de emergência e dinheiro de curto prazo.
Preciso pagar imposto ao vender com lucro?
Sim. O ganho é tributado pela tabela regressiva do IR, de 22,5% para até 180 dias a 15% acima de dois anos. O imposto incide só sobre o lucro e apenas no momento da venda.
Marcação a mercado, a favor de quem entende
A marcação a mercado não é um bicho de sete cabeças, é só a lei da oferta e da procura agindo sobre a renda fixa. Quem entende que juro alto tende a cair, e que a queda valoriza os títulos comprados antes, ganha uma ferramenta poderosa e de baixo risco relativo. Quem ignora, se assusta com a oscilação e vende no pior momento. O básico de economia, de novo, separa os dois. Estude o suficiente para não vender no susto, e a renda fixa deixa de ser só chão firme para virar também uma alavanca.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Avalie seus objetivos e, se precisar, procure um profissional certificado.